Tal qual meu pai que sonhava em sonhos, eu também sonhava voar. Sonhos preenchidos de voos mirabolantes, vagueando pelos céus como ave leve e sem pouso. Somente voar, entre árvores, linhas eléctricas, roçando pontes e deixando no ar quente, lá no alto, sons sibilantes das minhas asas cortando a noite. No cimo daquele terraço, de braços abertos e olhos semicerrados medindo o que me parecia um enorme abismo de três metros, eu senti um tremor nas pernas. Tinha falado com ele, e após uma análise profunda das leis da física contidas no meu único livro do Super Homem iniciei o projecto. Ele...? não, não o meu pai... a voz residente em mim, sem corpo mas com a coerência do próprio grilo falante, companheiro assíduo nas minhas brincadeiras de miúdo fechado, único rebento de uma série de meninas. As conversas eram sempre amenas, cordiais, mas de quando em vez dava por mim a argumentar com a minha própria voz detalhes técnicos acerca da colecção de aranhas, a observação das formigas ou o assunto desta história,... a capa do Super-Homem. Porque era na capa que residia o segredo de voo. Resolvemos improvisar uma com um tecido velho que encontrei na mala da minha avó. Ensaiei logo depois alguns saltos no muro do quintal e, na minha estranha forma de entender o mundo, a coisa resultava. Subi ao terraço da garagem e ali estava eu, de braços abertos sentindo já a brisa de odores mil elevando-me pelos ares, sibilando aos meus ouvidos. Olhei para os três metros que me separavam do chão, olhei por cima do ombro para a capa toda enfeitada com cornucópias e reavaliei a sua estrutura. Achei por bem fazer algumas alterações. Desci, e inspirado nos papagaios feitos em papel de jornal, juntei-lhe seis varas de canas da índia, cruzadas, presas com seguranças das fraldas do Migas, surripiadas do cestinho da minha tia Mariana num momento de desatenção afectuosa. Olhei desta vez satisfeito, para todo aquele aparelho de voo e subi novamente ao telhado, agora mais confiante na complexidade da estrutura que tinha criado. Olhei novamente para baixo… abri os braços com os dedos aprumados pelas abas da capa e achei por bem fechar os olhos para que os três metros do solo não me intimidassem… foi nessa altura que ouvi a voz que me habitava – "Talvez não seja boa ideia saltar… " - um moscardo zumbia ao meu ouvido – "… está mais que provado que resulta". Desci, mais aliviado que renitente, sem saber nunca quem me havia demovido da concretização do sonho, se o medo, o amigo invisível, ou... o moscardo.
sábado, 29 de Março de 2008
sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
pecados
- Diz-me lá rapaz...? conta-me dos teus pecados? - apoiava o rosto rosado nas mãos brancas colocadas em prece e os seus olhos baixavam displicentes daquele corpo sóbrio, posicionado em busto de santo, enquanto aguardava de mim o relatório das dores de Deus. Era sempre assim, inquieto, olhando-me sem vontade de me ver, auscultando-me pecados algures num ponto qualquer atrás de mim, envolvendo-me com a voz de veludo que ainda hoje usa para polir os défices espirituais das almas negras que levitam escuras, pelas coxias da igreja.
Os meus pecados... que pecados?!? Os mesmos pecados que inspiraram Dante, num inferno de chamas abertas, devorando corpos e almas. Os meus pecados... estigmas patrocinados por uma igreja escura e decadente que se afirmava sobre um povo dócil com um dogma etéreo da fé. Mas quais pecados? Acabava sempre por confessar pecados imaginários e servia-os ali como se fossem o prato do dia do menu da alma. Confessava que mentia, desobedecia, dizia palavrões... confessava dessa forma que não sabia rigorosamente nada acerca do pecado.
Aí o Sr. Abade suspirava e envolvia-me em orações e credos, condescendente com a minha falta de argumentos, com a minha falta de convicção.
Eu ouvia, só. Fazia um acompanhamento mudo do vocabulário esotérico e sereno que nunca consegui aprender em todos aquelas sessões sacras.
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al manaque
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sábado, 5 de Janeiro de 2008

Anseio tocar teu corpo,...
... a curva do teu pescoço que se presta aos meus intentos.
Deslizar os lábios lentos como quem sorve sem sede
a leveza da água que se escoa no teu peito.
Aí paro mas só em sonhos, digitalizo e guardo em memória
a doçura do teu traço, toco leve no teu braço,
abraço o que posso e circundo sem receioa beleza do teu seio.
Desço mais um pouco, ao teu ventre,
que carente já de fogo com meus lábios em deslize vou queimando.
E o meu corpo se transforma, busco no ar que me rodeia
o odor das tuas coxas que se abrem sem pudor
e a dor que me consome dá-me luz dá-me fome.
Bebo o sal do teu corpo, serpenteio minha língua
como quem vive numa míngua, morro ébrio de desejo.
E quando tudo se aproxima, olhos nos olhos entro dentro
da volúpia do teu corpo que me escolhe,...
que me acolhe.
Anseio tocar teu corpo…
Al Nónimo
Pintura Paul Klee - Embrace
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al manaque
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sábado, 24 de Novembro de 2007
Espiralaram a Via Láctea sem nunca se encontrarem, em voos diferentes, espirais paralelas, com turbilhões de luz cósmica de tonalidades e graduações infinitésimais, algumas delas até inexistentes no cardápio da própria Robbialac, fustigando as naves sólidas e luzidias em direcção ao amanhecer de uma nova era num planeta que só podia ser azul. Assim começou a história dos Aliens que se adoram ou mais que isso mas que ainda não o sabem pelo menos neste principio de história mirabolante. Entraram no sistema Solar pelo Norte da bússola do Universo, signo do Aquário, circundaram o frio de Plutão pela imensa estrada que ziguezagueia todos os restantes planetas... Neptuno, Úrano, Saturno, Júpiter, Marte e todos os outros que se escondem ainda com truques hológráficos do olhar da humanidade. Saem numa velocidade vertiginosa pela lado trincado da Lua que nessa altura estava num Quarto Crescente ameaçador... cuidado com o esse lado negro, e abrem-se os seus olhos de espanto, em momentos diferentes, para o azul que lhes ocupa todo o horizonte visível e invisível (desculpe o plágio senhor abade), em naves diferentes, em espasmos de silêncioooooooo... ... ... silêncioooooo ... para ainda procurarem o olhar do outro, sem se verem, e registarem nos recônditos das suas próprias memórias, o saberem que se sabem e não se sabe como, mas... bolas, conhecemo-nos toda vida mas não sei quando. Fica aqui a explicação do facto.
Al Nónimo
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al manaque
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domingo, 11 de Novembro de 2007
o que de facto existe

Caro amigo, hoje aventurei-me por aquele caminho de odores velhos e árvores frondosas que tantas vezes percorremos afoitos, assobiando de improviso melodias que não sabiamos sequer existir. Por entre as sombras verdes, as memórias das nossas próprias vozes ecoaram subindo, por dentro, desfiando as nossas eternas discussões acerca da gestão divina de um deus que julgavamos existir e as não menos sagradas dissertações acerca das longas pernas da bela Joana que nos embriagava os sentidos nas aulas de educação fisica. Essas existiam de facto e não só nas minhas noites turbulentas. As árvores continuam lá solenes e imortais esperando o açoite do homem, mas aquele pequeno riacho que pulavamos de um salto, deixou de percorrer o trilho sinuoso de prata de onde surripiavamos os girinos irrequietos que guardavamos em frascos de vidro na esperança de assistir à magia da transformação. Morriam carentes do movimento das águas e a magia morria também com eles. Os sons dos bichos do mato são mais fracos que outrora ou os meus ouvidos perderam a capacidade de ouvir frequências tão doces, habituados que estão à rudeza do asfalto e aos sons complexos da nossa urbanidade. Mesmo assim fica aqui o desafio. Quando te resolveres a visitar a terra, aventura-te por aquele caminho que parece ter sempre existido.
Al Manaque
pintura Delilah Smith
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al manaque
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segunda-feira, 9 de Julho de 2007
Quim das Corgas
O Quim era louco. Sentava-se no madeiro do banco corrido, cofiando a barba, snifando rapé e entoando um monólogo interminável como se o fizesse no próprio respirar. Eu ficava de ouvido à escuta tentando apanhar algum sentido no que ele dizia, em busca de alguma pista para aquela demência que me fascinava e me aterrorizava.
Diziam-se coisas da sua passagem pelo ultramar, outros associavam o seu desatino a um amor perdido. Ocorreu-me perguntar-lhe mas achei por bem não o tentar naquele momento, porque naquele momento ele fulminava-me com aquele olhar terrível que o fazia temido nas redondezas.
- Eu disse um quartilho... - vociferou enquanto apoiava as mão enormes no balcão - ... e isto não é um quartilho!! - impressionante como todas as partes do seu corpo de gigante pareciam conjugar-se com aquele olhar que se pregava no copo de vinho. Depois resolveu prega-lo em mim. Tentei olhá-lo de frente, não nos olhos directamente mas numa zona algures por ali onde as minhas pernas não tremessem tanto.
- Não posso... a minha mãe... proibiu... - a voz saiu-me esganiçada e sem convicção. Nada como tinha planeado quando tossiquei para libertar o nó da garganta - ... queres que a chame aqui? - era um argumento covarde mas que eu sabia surtir algum efeito. Baixou os olhos para o copo e quando o ergueu, bebeu-o de uma só vez. Não que fosse de beber em demasia mas sabia-se o que um copo a mais conseguia fazer na sua loucura natural. Era vê-lo pelas ruas bradando aqui-del-rei-ás-armas, cambaleando trôpego atrás dos catraios que sumiam pelos becos deixando os botões do jogo do pião abandonados no centro da roda.
Tinha a força de um touro. Chamavam-no quando o trabalho era duro e ele entregava a sua força como mais ninguém e por quase nada. Sentou-se e transformou-se. Já me tinha habituado àquelas mudanças bruscas de humor. O seu corpo sorriu. Vestiu-se com a docilidade infantil de um velho. Podia perguntar agora, pensei. Cheguei-me ao balcão, mais perto, para sentir a força da sua presença. Segurava nas suas mãos fortes, ásperas, o chapéu sujo e gasto.
- .. Quim... - chamei. Ficou igual, com um respirar profundo e mágico. Procurei as palavras mas não encontrei nada que jeito tivesse e a curiosidade foi-se. Fiquei só a ver-lhe o rosto marcado, dócil e os olhos perdidos no branco da parede. Morreu nessa mesma noite no percurso que acompanha o comboio até à vila, talvez tocado por ele, talvez tocado por alguém que o feriu de morte e ali o deixou abandonado, sem dó. Conheciam-se inimizades e histórias de partilhas mas tudo isso morreu também pouco tempo depois. Ficou uma foto sua, exposta no café da aldeia numa pose de génio taralhouco mas com o olhar mais lúcido que lhe conheci.
Al Manaque
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segunda-feira, 18 de Junho de 2007
economia de mercado
Mostraram-me o gráfico do meu próprio desempenho. Alguns prazos não estavam a ser cumpridos. Uma leve brisa entrou pela janela entreaberta trazendo com ela um suave aroma verde que argumentava com os índices de produtividade que me chegavam aos ouvidos em ondas curtas e sem forma. Como se de repente tivesse entrado num túnel... do tempo... onde as vozes se misturam algures no espaço.
- ... performance?? - pensei - eles sabem lá o que é performance..!!! - olhei pela janela. O sol já ia alto. Vi a minha nave reluzente lá fora com as suas turbinas dissimuladas e o sistema anti-gravitacional já activado telepaticamente. Um ruído grave, inaudível, quase se fazia ouvir pelo comum dos mortais.
- Isto sim, é performance... - movi o olhar para a sala de aula onde o tempo se misturava.
- ... as províncias de Angola,... quem sabe levante o dedo... - passei os dedos pela lombada do meu livro de Geografia sem intenção de o abrir. Ao meu lado o Joaquim também olhava absorto pela janela enquanto girava o coto do lápis na bochecha. Será que ele também tinha ali a sua nave estacionada pronta a arrancar pelo negrume dos céus ?
- ... Bié... Cabinda... Huíle... Luanda - o Manel China desfiava o rosário das províncias de Angola ainda de dedo em riste apontando algures um ponto no espaço. Olhei de novo a nave lá fora. A cúpula girava lentamente em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, enquanto as doze lâmpadas de brilho âmbar marcavam toda a área de influência magnética do aparelho. De qualquer forma teria que aguardar pelo anoitecer. O sol tinha descido mais um pouco e preparava-se para desaparecer atrás dos prédios cinzentos, onde tudo parecia convergir
- ... se não tiverem questões a colocar, julgo que podemos dar por terminada a reunião... - os gráficos tinham desaparecido e em seu lugar estavam agora alguns apontamentos para o mês seguinte. Levantei-me e olhei pela janela antes de sair... a nave tinha desaparecido juntamente com o sol.
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al manaque
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