1 de abril de 2011

Os gráficos do meu desempenho

Mostraram-me o gráfico do meu desempenho. Alguns prazos não estavam a ser cumpridos. Uma leve brisa entrou pela janela entreaberta trazendo com ela um suave aroma verde que argumentava com os índices de produtividade que me chegavam aos ouvidos em ondas curtas e sem forma... como se de repente tivesse entrado num túnel... do tempo... onde as vozes se misturavam algures no espaço, onde as memórias se confundiam e se entrelaçavam.
     -... os objectivos para o mês de Setembro são baseados na fraca performance dos meses antecedentes... - a voz continuava a ouvir-se num vaivém de ondas sem conteúdo... nem tempo.      "... performance??" - pensei - "eles sabem lá o que é performance..!!!"      Olhei pela janela. O sol já ia alto. Lá fora pairava a minha nave reluzente com as suas turbinas dissimuladas e o sistema anti-gravitacional já activado telepaticamente. Por vezes o ruído grave do engenho ondulava todo o espaço do recreio, chegava formigando-me os pés, subindo pelas paredes num levíssimo trepidar quase audível para o resto da classe.      "Isto sim, é performance... " - movi o ollhar para a sala de aula onde o tempo se misturava.      -... as províncias de Angola,... quem sabe, levante o dedo... - passei os dedos pela lombada do meu livro de Geografia sem intenção de o abrir. Ao meu lado o Joaquim olhava absorto pela janela enquanto girava o côto do lápis na bochecha. "Será que ele também tinha ali a sua nave estacionada pronta a arrancar pelo negrume dos céus ?"      -... Bié... Cabinda... Huíle... Luanda... - o Manel China desfiava o rosário das províncias de Angola ainda de dedo em riste apontando algures um ponto no espaço. Olhei de novo pela janela. Agora a cúpula da nave girava lentamente em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio enquanto as doze lâmpadas de brilho ambar marcavam toda a área de influência magnética do aparelho. De qualquer forma teria que aguardar pelo anoitecer, pensei. O sol tinha descido um pouco mais e preparava-se para desaparecer atrás dos prédios cinzentos, onde tudo parecia convergir      -... se não tiverem mais questões a colocar, julgo que podemos dar por terminada a reunião... - os gráficos tinham desaparecido e em seu lugar estavam agora alguns apontamentos para o mês seguinte. 

     Levantei-me, olhei pela janela antes de sair... a nave tinha desaparecido juntamente com o sol.

1 comentário:

Elis disse...

Homem! Escreves e desenhas tão bem, c'um caneco!!! Li tudo do pouco-Muito que deixaste aqui. Adorei! Qual quê? Adoro! Viaja-se, sonha-se, vive-se, brilham os olhos, soltam-se as lágrimas, por vezes, outras vezes os sorrisos, saem as palavras dos lábios, ... Não se ouvem, talvez... Mas oxalá que te cheguem os sussurros das emoções e dos pensamentos, ao menos. São pensamentos e sussurros bons.

O tempo é sempre pouco para ler tanto do que por aí pulula, se publica, ou se "posta", como se ousa dizer agora, se recebe por email, porque tem que ser e tem que se ler e responder, e, e, e... Quantas vezes tempo perdido, a ler aquilo que não passa de lixo, de informação extra sobre o que já se sabe, de desinformação, de formação e deformação, de culto do eu sob variadíssimas formas, e de coisas ainda piores.

Haja tempo, haja liberdade, haja lágrimas de emoção, haja sorriso que façam o tempo das palavras e imagens que valem a pena acontecer.

Obrigada, meu amigo!