-... os objectivos para o mês de Setembro são baseados na fraca performance dos meses antecedentes... - a voz continuava a ouvir-se num vaivém de ondas sem conteúdo... nem tempo. "... performance??" - pensei - "eles sabem lá o que é performance..!!!" Olhei pela janela. O sol já ia alto. Lá fora pairava a minha nave reluzente com as suas turbinas dissimuladas e o sistema anti-gravitacional já activado telepaticamente. Por vezes o ruído grave do engenho ondulava todo o espaço do recreio, chegava formigando-me os pés, subindo pelas paredes num levíssimo trepidar quase audível para o resto da classe. "Isto sim, é performance... " - movi o ollhar para a sala de aula onde o tempo se misturava. -... as províncias de Angola,... quem sabe, levante o dedo... - passei os dedos pela lombada do meu livro de Geografia sem intenção de o abrir. Ao meu lado o Joaquim olhava absorto pela janela enquanto girava o côto do lápis na bochecha. "Será que ele também tinha ali a sua nave estacionada pronta a arrancar pelo negrume dos céus ?" -... Bié... Cabinda... Huíle... Luanda... - o Manel China desfiava o rosário das províncias de Angola ainda de dedo em riste apontando algures um ponto no espaço. Olhei de novo pela janela. Agora a cúpula da nave girava lentamente em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio enquanto as doze lâmpadas de brilho ambar marcavam toda a área de influência magnética do aparelho. De qualquer forma teria que aguardar pelo anoitecer, pensei. O sol tinha descido um pouco mais e preparava-se para desaparecer atrás dos prédios cinzentos, onde tudo parecia convergir -... se não tiverem mais questões a colocar, julgo que podemos dar por terminada a reunião... - os gráficos tinham desaparecido e em seu lugar estavam agora alguns apontamentos para o mês seguinte.
Levantei-me, olhei pela janela antes de sair... a nave tinha desaparecido juntamente com o sol.

1 comentário:
Homem! Escreves e desenhas tão bem, c'um caneco!!! Li tudo do pouco-Muito que deixaste aqui. Adorei! Qual quê? Adoro! Viaja-se, sonha-se, vive-se, brilham os olhos, soltam-se as lágrimas, por vezes, outras vezes os sorrisos, saem as palavras dos lábios, ... Não se ouvem, talvez... Mas oxalá que te cheguem os sussurros das emoções e dos pensamentos, ao menos. São pensamentos e sussurros bons.
O tempo é sempre pouco para ler tanto do que por aí pulula, se publica, ou se "posta", como se ousa dizer agora, se recebe por email, porque tem que ser e tem que se ler e responder, e, e, e... Quantas vezes tempo perdido, a ler aquilo que não passa de lixo, de informação extra sobre o que já se sabe, de desinformação, de formação e deformação, de culto do eu sob variadíssimas formas, e de coisas ainda piores.
Haja tempo, haja liberdade, haja lágrimas de emoção, haja sorriso que façam o tempo das palavras e imagens que valem a pena acontecer.
Obrigada, meu amigo!
Enviar um comentário