19 de fevereiro de 2012

Os astros

    
Os astros são imensas criaturas vivas de pulsação milenar que sempre me fizeram sonhar com viagens e descobertas fantásticas. Passam quase sempre despercebidos, silenciados pelo ruído gerado por este mundo onde o sonho se confunde com os índices económicos e as constelações são remetidas para as cartas astrológicas que teimamos em usar como barómetros inócuos das nossas vidas.
     Mas o universo continua lá, inatingível, coerente, em milhares de constelações e nebulosas que me abarcam o olhar, me repreendem os sentidos quando me afasto daquilo que sou e me domesticam a alma quando me deixo seduzir por orgulhos mais terrenos.
     Criados do mesmo pó interestelar, esses seres imensos que se movimentam serenamente pelas forças gravitacionais do cosmos, cumprem escrupulosamente cálculos matemáticos mas continuam completamente alheios aos problemas que nos ensombram os orçamentos de estado deste nosso país onde a matemática parece nunca se aplicar.
     Somos feitos de um pó agrupado num resultado instável mas fantástico, filtrados pelas imensas teias do universo que sem objectivos estipulados nem projectos definidos fizeram de nós uma criação magnífica, frágil e volátil.
     Serão eles os deuses sem religião nem compaixão cujo inventário vamos anotando e arquivando na nossa memória colectiva e intemporal?
     O universo é assim, vasto e profícuo nas suas intenções sem intenções definidas e nós seremos tão somente, sempre e só, os escribas com lições vagas de uma escrita que não dominamos, desses deuses que eu só vejo quando me lembro de erguer o olhar.