- Sentes a energia? - apontou com o dedo curvo, longo, a encosta sul da vila, o castelo onde as sombras se alongavam na paisagem subindo pelas torres afiadas que pareciam debicar pedaços de nuvem.
Sorria ainda. Sorrir parecia o seu modo de vida.
- O castelo?
- Sim, é isso que o chamam... o castelo...! - disse-o de forma como quem traduz o que vê sem querer saber de nomes nem definições. Abriu mais os olhos já de si enormes, sugando sôfrego árvores, casas, ruas, rascunhando com umas pupilas inquietas, camaleónicas, toda a informação à sua volta que depois rabiscava num caderninho gasto, letrinha miúda, estranha, que eu tentava decifrar sem êxito no intento. Não sabia dos nomes. Pareciam não lhe interessar. Olhava e sorvia o que via. Nunca ninguém soube o que fazia, onde vivia, de que vivia. Aparecia na vila, com ar desengonçado como um corpo em início de formação, palmilhando campos, ruas, os serrados onde se deixava ficar imóvel, de olhos pregados no horizonte como se procurasse algures um ponto estável onde o seu corpo não se desmantelasse.
Escondeu de novo a madeixa de cabelo que me pareceu diferente... verde? - sorri-me com essa possibilidade improvável. O sol já não se via. Atrás de nós, os músicos iniciavam uma guerra de escalas harmónicas, agitando trompetes, clarinetes, trombones, batendo os pés no chão do coreto ao ritmo do nada, sem pauta nem compasso, rindo da sua própria dissonância. As luzes coloridas acenderam-se nos taipais enfeitados de flores de papel, iluminando os primeiros festeiros. Virei-me para o rapaz dos dedos longos que já desaparecia por entre quem chegava, esses com sorrisos largos e passos pequenos que é, como sabemos, prática assente de quem se move por romarias nas noites quentes de verão. Vi-o ao longe quando se virou em modo de despedida, mão erguida de dedos longos, curvos, a madeixa verde caindo de novo pela aba do boné, um estranho brilho nos olhos, idêntico ao brilho batido pelas luzes coloridas no trompete que solava afoito, agora com pauta e acerto no compasso do maestro da banda.
Nessa noite, depois do fogo de artificio que sobressaltou os céus com estouros de milhares de estrelas cadentes, depois dos instrumentos de sopro se apagarem nas embocaduras dos músicos cansados, sentados fumando, bebendo sobras de cerveja passada,... nessa noite algo estranho fez-nos erguer de pasmo, a mim também que já me deixava levar pelo cansaço, mãos nos bolsos caminhando pelo encosta oeste. Um fulgor de luz de um azul sem nome, pulsando tal qual os milhões de estrelas cadentes do fogo de artificio de há pouco mas agora como que condensadas num só fogo, ergueu-se na noite iluminando a festa apagada, vinda do lado onde o rapaz da madeixa verde e olhos grandes, apontara com um dedo longo, curvo, aquilo que ele não sabia o nome porque nomes eram coisas que não lhe interessavam... a saber, o castelo. A luz deambulou éterea, sem forma nem intenção até desaparecer como apareceu apagando de novo a noite, deixando no ar um odor doce e uma estranha névoa que, volátil se dissolveu no ar deixando apenas o silêncio do assombro dos músicos cujos olhos se pareciam, agora de tão grandes, como os do rapaz do cabelo pardo e dedos longos... a esse, nunca mais ninguém o viu palmilhando campos e ruas, rabiscando coisas sem nome no caderninho gasto... talvez a luz o tivesse levado.

1 comentário:
Gostei..a nossa imaginação é fantástica!
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