1 de maio de 2011

Não é chuva… é água

  
Habituei-me a vê-lo no seu regresso da escola, mochila às costas com aquele sorriso de miúdo sabido estampado no rosto, a saltitar de poça em poça.
– Então José!? … vais assim, à chuva?
– Não é chuva senhor António, é água… - dizia ele concentrado no splash dos seus pés.
     Sempre fora assim vivaço, sem emenda na palavra nem entendimento para os mais pequenos rudimentos da vida. Desesperava a mãe que já só se limitava a pedir-lhe brandamente para não se molhar, não entrar em brigas e não rogar pragas, ao que ele respondia como sempre, sim senhora minha mãe, e guardava o pedido algures em zonas recônditas daquela cabeça de cabelo negro e revolto.
     Naquele ano, as chuvas demoraram a chegar. O Outono já se despedia e o céu não tinha feito muito mais do que pequenos reparos a um solo que se estriava de uma seca da qual já não havia memória.
No entanto aquela manha prometia. Algumas gotas molharam o pó da terra deixando o odor de solo fértil e aromático das primeiras chuvas. José olhou pela janela para um céu que se cobria de nuvens carregadas de uma promessa latente.
- José… nem penses em ir para a rua assim, ouviste?
- Sim minha mãe… - respondeu olhando de soslaio o gato que lhe devolveu um olhar de cumplicidade.
De repente o trovejar deu lugar a uma chuva grossa e fria, dando razão à senhora do boletim meteorológico que a tinha anunciado nas notícias do dia anterior, e José de rosto aberto e olhos iluminados esgueirou-se pela porta da rua numa correria de corpo inteiro em prece pela dádiva recebida.
- José… olha que chove filho…
- Não é chuva mãe… é água.

10 de abril de 2011

Pecados

    
- Diz-me lá rapaz...? conta-me dos teus pecados? - apoiava o rosto rosado nas mãos brancas colocadas em prece e os seus olhos baixavam displicentes naquele corpo sóbrio, posicionado em busto de santo, enquanto aguardava de mim o relatório das dores de Deus. Era sempre assim, inquieto, olhando-me sem vontade de me ver, auscultando-me pecados algures num ponto qualquer atrás de mim, envolvendo-me com uma voz de veludo que ainda hoje usa para polir os défices espirituais das almas negras que levitam, escuras, pelos recantos da igreja.
     "Os meus pecados... quais pecados?!?" Os mesmos pecados que inspiraram Dante, num inferno de chamas abertas, devorando corpos e almas. Os meus pecados... estigmas patrocinados por uma igreja sombria e decadente que se afirma sobre um povo dócil com um dogma etéreo da fé. Mas quais pecados? 
     Acabava sempre por confessar pecados imaginários e servia-os ali como se fossem o prato do dia do menu da alma. Confessava que mentia, desobedecia, dizia palavrões... confessava dessa forma que não sabia rigorosamente nada acerca do pecado.
     Aí o Sr. Padre suspirava e envolvia-me em orações e credos, condescendente com a minha falta de argumentos, com a minha falta de convicção. Eu ouvia,... só. Fazia um acompanhamento mudo do vocabulário esotérico e sereno que nunca consegui aprender em todas aquelas sessões sacras. 
     A sentença saía logo depois numa série de padre nossos e avé marias a soletrar nos degraus do altar-mor, de olhos postos, devotos, num Cristo crucificado de braços abertos de sofrimento e sangue. As preces saíam-me com erros de entendimento, sussurradas no vazio da minha cabeça e ali mesmo ao meu lado, pagando a sua conta, João do Boco avançado-mor nos jogos da bola de sábado à tarde, ele de olhos pregados no vermelho do tapete que adornava a cruz, sussurrava também ele no vazio da sua cabeça, caralhos e fodasses, heresias cultivadas nas ruas da aldeia, as mesmas com que incentivava o nonagésimo toque na bola sem a deixar cair no chão.

5 de abril de 2011

Pequenos prazeres

  
Durante a minha morte senti o desdém dos muitos que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram para dentro e saíram cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em subtis espasmos musculares num qualquer canto da boca.
     Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Desenganem-se. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Deixa-nos morrer devagar mesmo depois da certidão de óbito, com a lentidão necessária para que todos os hipócritas que nos sorriram em vida, mostrem a fronha desfraldada na sua verdadeira essência enquanto nos apagamos serenamente. "Que se fodam" - pensei eu com as presilhas da minha urna. Eu só estou aqui deitado, inerte, porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos.
     Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiúço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal das barbas brancas e voz de tuba. Digo-vos mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. 
     Ah... lá vem aquele fuinha do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata,... preta como lá-terá-que-ser, murmurou qualquer coisa sem interesse acerca do é-o-destino-coitado-era-tão-bom-rapaz, fez contas às possíveis promoções inerentes à minha rigidez irreversível e saiu como entrou... olhando o chão, mãos cruzadas nas partes importantes, como se tudo aquilo não passasse de um livre directo no futebol da sua carreira.
     Olha quem vem lá agora,... alguém que eu amo... não,... não me desligues agora... por favor... arghhhh... raio de barbuuuuuuuuuuu...

1 de abril de 2011

Os gráficos do meu desempenho

Mostraram-me o gráfico do meu desempenho. Alguns prazos não estavam a ser cumpridos. Uma leve brisa entrou pela janela entreaberta trazendo com ela um suave aroma verde que argumentava com os índices de produtividade que me chegavam aos ouvidos em ondas curtas e sem forma... como se de repente tivesse entrado num túnel... do tempo... onde as vozes se misturavam algures no espaço, onde as memórias se confundiam e se entrelaçavam.
     -... os objectivos para o mês de Setembro são baseados na fraca performance dos meses antecedentes... - a voz continuava a ouvir-se num vaivém de ondas sem conteúdo... nem tempo.      "... performance??" - pensei - "eles sabem lá o que é performance..!!!"      Olhei pela janela. O sol já ia alto. Lá fora pairava a minha nave reluzente com as suas turbinas dissimuladas e o sistema anti-gravitacional já activado telepaticamente. Por vezes o ruído grave do engenho ondulava todo o espaço do recreio, chegava formigando-me os pés, subindo pelas paredes num levíssimo trepidar quase audível para o resto da classe.      "Isto sim, é performance... " - movi o ollhar para a sala de aula onde o tempo se misturava.      -... as províncias de Angola,... quem sabe, levante o dedo... - passei os dedos pela lombada do meu livro de Geografia sem intenção de o abrir. Ao meu lado o Joaquim olhava absorto pela janela enquanto girava o côto do lápis na bochecha. "Será que ele também tinha ali a sua nave estacionada pronta a arrancar pelo negrume dos céus ?"      -... Bié... Cabinda... Huíle... Luanda... - o Manel China desfiava o rosário das províncias de Angola ainda de dedo em riste apontando algures um ponto no espaço. Olhei de novo pela janela. Agora a cúpula da nave girava lentamente em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio enquanto as doze lâmpadas de brilho ambar marcavam toda a área de influência magnética do aparelho. De qualquer forma teria que aguardar pelo anoitecer, pensei. O sol tinha descido um pouco mais e preparava-se para desaparecer atrás dos prédios cinzentos, onde tudo parecia convergir      -... se não tiverem mais questões a colocar, julgo que podemos dar por terminada a reunião... - os gráficos tinham desaparecido e em seu lugar estavam agora alguns apontamentos para o mês seguinte. 

     Levantei-me, olhei pela janela antes de sair... a nave tinha desaparecido juntamente com o sol.

26 de março de 2011

Madeixa verde


Quando o olhei já ele me sorria com uns lábios tensos. Sentou-se ao meu lado enquanto ajustava a madeixa de cabelo pardo que lhe deslizava pela aba do boné feito de um tecido grosso e gasto. Levou o sorriso na direcção do vale que abraçava a povoação sob o sol quieto do fim da tarde.
- Sentes a energia? - apontou com o dedo curvo, longo, a encosta sul da vila, o castelo onde as sombras se alongavam na paisagem subindo pelas torres afiadas que pareciam debicar pedaços de nuvem.
Sorria ainda. Sorrir parecia o seu modo de vida.
- O castelo?
- Sim, é isso que o chamam... o castelo...! - disse-o de forma como quem traduz o que vê sem querer saber de nomes nem definições. Abriu mais os olhos já de si enormes, sugando sôfrego árvores, casas, ruas, rascunhando com umas pupilas inquietas, camaleónicas, toda a informação à sua volta que depois rabiscava num caderninho gasto, letrinha miúda, estranha, que eu tentava decifrar sem êxito no intento. Não sabia dos nomes. Pareciam não lhe interessar. Olhava e sorvia o que via. Nunca ninguém soube o que fazia, onde vivia, de que vivia. Aparecia na vila, com ar desengonçado como um corpo em início de formação, palmilhando campos, ruas, os serrados onde se deixava ficar imóvel, de olhos pregados no horizonte como se procurasse algures um ponto estável onde o seu corpo não se desmantelasse.
Escondeu de novo a madeixa de cabelo que me pareceu diferente... verde? - sorri-me com essa possibilidade improvável. O sol já não se via. Atrás de nós, os músicos iniciavam uma guerra de escalas harmónicas, agitando trompetes, clarinetes, trombones, batendo os pés no chão do coreto ao ritmo do nada, sem pauta nem compasso, rindo da sua própria dissonância. As luzes coloridas acenderam-se nos taipais enfeitados de flores de papel, iluminando os primeiros festeiros. Virei-me para o rapaz dos dedos longos que já desaparecia por entre quem chegava, esses com sorrisos largos e passos pequenos que é, como sabemos, prática assente de quem se move por romarias nas noites quentes de verão. Vi-o ao longe quando se virou em modo de despedida, mão erguida de dedos longos, curvos, a madeixa verde caindo de novo pela aba do boné, um estranho brilho nos olhos, idêntico ao brilho batido pelas luzes coloridas no trompete que solava afoito, agora com pauta e acerto no compasso do maestro da banda.
Nessa noite, depois do fogo de artificio que sobressaltou os céus com estouros de milhares de estrelas cadentes, depois dos instrumentos de sopro se apagarem nas embocaduras dos músicos cansados, sentados fumando, bebendo sobras de cerveja passada,... nessa noite algo estranho fez-nos erguer de pasmo, a mim também que já me deixava levar pelo cansaço, mãos nos bolsos caminhando pelo encosta oeste. Um fulgor de luz de um azul sem nome, pulsando tal qual os milhões de estrelas cadentes do fogo de artificio de há pouco mas agora como que condensadas num só fogo, ergueu-se na noite iluminando a festa apagada, vinda do lado onde o rapaz da madeixa verde e olhos grandes, apontara com um dedo longo, curvo, aquilo que ele não sabia o nome porque nomes eram coisas que não lhe interessavam... a saber, o castelo. A luz deambulou éterea, sem forma nem intenção até desaparecer como apareceu apagando de novo a noite, deixando no ar um odor doce e uma estranha névoa que, volátil se dissolveu no ar deixando apenas o silêncio do assombro dos músicos cujos olhos se pareciam, agora de tão grandes, como os do rapaz do cabelo pardo e dedos longos... a esse, nunca mais ninguém o viu palmilhando campos e ruas, rabiscando coisas sem nome no caderninho gasto... talvez a luz o tivesse levado.

24 de março de 2011

Aplauso


(APLAUSOS)
«… muito obrigado... muito obrigado. A vossa presença, os vossos aplausos, são de facto a motivação essencial para que nós, políticos deste país em construção, continuemos nesta luta pelo progresso, pela igualdade, determinados na extinção da pobreza, na reformulação de todo o sistema educativo que pretendemos abrangente e de qualidade e que se torne assim o garante do progresso deste país que tanto amamos….»
(APLAUSOS)
«… com a nossa eleição, tudo será diferente. Temos projectos minuciosos para áreas como o ambiente, que consideramos de importância maior, para a saúde, educação, tudo isto porque achamos que o país merece… vocês merecem , todos merecemos mais e melhor, e o melhor é toda esta equipa que me rodeia e que será garantidamente o futuro governo deste país… »

UM - Ouça lá amigo, porque é que não aplaude como toda a gente?
OUTRO - Não sei… talvez por achar que ele ainda não mereça o meu aplauso...
UM - Então não acha que se toda a gente aplaude, é porque ele merece?
OUTRO - Bom… eu acho que será prematuro…
UM - Então porque está aqui a ouvi-lo?
OUTRO - … porque só assim poderei…
UM - Mas afinal qual é o seu partido?
OUTRO - Partido? … não sei!! Sou mesmo obrigado a…
UM - Mas claro que sim, toda a gente tem um. Olhe, escolha este, é o melhor… repare no homem, todo ele irradia honestidade, determinação... simpatia, não tenha dúvidas… vá por ele.

«… e deixo-vos com estas palavras e com a garantia de que novos caminhos serão percorridos para a concretização dos mais altos desígnios do País e deixando-vos a certeza, de que como governante deste país... serei… a união perfeita... entre o povo... e o governo… tenho dito.»
Ouve-se alguém a não aplaudir.

19 de março de 2011

Quim das Corgas


    
O Quim era louco. Sentava-se no madeiro do banco corrido, cofiando a barba, snifando rapé e entoando um monólogo interminável como se o fizesse no próprio respirar. Eu ficava ali, de ouvido à escuta tentando apanhar algum sentido no que dizia, em busca de uma pista para aquela demência que me fascinava e me aterrorizava.
     Diziam-se coisas. Causas para tanto desatino. Histórias de um amor perdido, outras acerca da guerra... histórias que me soavam a coisa tão pouco original que não me passou pela cabeça apoiar tal loucura em coisas tão banais. Ocorreu-me perguntar-lhe mas, naquele momento achei por bem não o tentar, porque naquele momento ele fulminava-me com um olhar terrível, o mesmo que o fazia temido nas redondezas.
- Eu disse um quartilho... - vociferou enquanto apoiava as mão enormes no balcão - ... e isto não é um quartilho!! - era impressionante como todas as partes do seu corpo de gigante pareciam conjugar-se com a força daquele olhar que por sua vez se pregava no copo do vinho. Depois, bem... depois resolveu prega-lo em mim. Tentei olhá-lo de frente com uma coragem duvidosa, não nos olhos directamente mas numa zona algures por ali onde as minhas pernas não tremessem tanto.
- Não posso... a minha mãe... proibiu... - comecei por dizer, mas a voz saiu-me esganiçada e sem convicção. Nada como tinha planeado quando tossiquei para libertar o nó da garganta - ... queres que a chame aqui? - era um argumento cobarde mas que eu sabia surtir algum efeito. Ajustou o corpo num impasse, baixou de novo os olhos para o copo e quando o ergueu, bebeu-o de uma só vez. Não que fosse de beber em demasia mas era sabido o que um copo a mais conseguia fazer na sua loucura natural. Quando tal acontecia era vê-lo pelas ruas bradando aqui-del-rei-ás-armas, cambaleando trôpego atrás dos catraios que sumiam pelos becos deixando os botões do jogo do pião abandonados no centro da roda. Tinha a força de um touro. Era solicitado quando o trabalho era duro e entregava a sua força como ninguém e por quase nada.
     Então sentou-se, e quando o fez, transformou-se. Já me tinha habituado àquelas mudanças de humor. O seu corpo quase que sorriu com a docilidade infantil de um velho. Podia perguntar agora, pensei. Cheguei-me ao balcão, um pouco mais perto... conseguia sentir a força da sua presença no próprio ar que o envolvia. Segurava nas suas mãos fortes, ásperas, o chapéu sujo e gasto.
- .. Quim... - chamei. Ficou igual, com um respirar profundo e mágico. Procurei as palavras mas não encontrei nada que servisse o meu propósito. Olhei as minhas próprias mãos apoiadas no frio do balcão e a curiosidade foi-se. Fiquei só a ver-lhe o rosto marcado, dócil e os olhos perdidos no branco da parede.
     Morreu numa dessas noite, no percurso que acompanha o comboio até à vila, talvez tocado por ele, talvez por alguém que o feriu de morte e ali o deixou. Ficou uma foto sua, exposta no café da freguesia numa pose de génio taralhouco mas com o olhar mais lúcido que lhe conheci.