– Então José!? … vais assim, à chuva?
– Não é chuva senhor António, é água… - dizia ele concentrado no splash dos seus pés.
Sempre fora assim vivaço, sem emenda na palavra nem entendimento para os mais pequenos rudimentos da vida. Desesperava a mãe que já só se limitava a pedir-lhe brandamente para não se molhar, não entrar em brigas e não rogar pragas, ao que ele respondia como sempre, sim senhora minha mãe, e guardava o pedido algures em zonas recônditas daquela cabeça de cabelo negro e revolto.
Naquele ano, as chuvas demoraram a chegar. O Outono já se despedia e o céu não tinha feito muito mais do que pequenos reparos a um solo que se estriava de uma seca da qual já não havia memória.
No entanto aquela manha prometia. Algumas gotas molharam o pó da terra deixando o odor de solo fértil e aromático das primeiras chuvas. José olhou pela janela para um céu que se cobria de nuvens carregadas de uma promessa latente.
- José… nem penses em ir para a rua assim, ouviste?
- Sim minha mãe… - respondeu olhando de soslaio o gato que lhe devolveu um olhar de cumplicidade.
De repente o trovejar deu lugar a uma chuva grossa e fria, dando razão à senhora do boletim meteorológico que a tinha anunciado nas notícias do dia anterior, e José de rosto aberto e olhos iluminados esgueirou-se pela porta da rua numa correria de corpo inteiro em prece pela dádiva recebida.
- José… olha que chove filho…
- Não é chuva mãe… é água.
