5 de abril de 2011

Pequenos prazeres

  
Durante a minha morte senti o desdém dos muitos que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram para dentro e saíram cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em subtis espasmos musculares num qualquer canto da boca.
     Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Desenganem-se. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Deixa-nos morrer devagar mesmo depois da certidão de óbito, com a lentidão necessária para que todos os hipócritas que nos sorriram em vida, mostrem a fronha desfraldada na sua verdadeira essência enquanto nos apagamos serenamente. "Que se fodam" - pensei eu com as presilhas da minha urna. Eu só estou aqui deitado, inerte, porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos.
     Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiúço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal das barbas brancas e voz de tuba. Digo-vos mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. 
     Ah... lá vem aquele fuinha do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata,... preta como lá-terá-que-ser, murmurou qualquer coisa sem interesse acerca do é-o-destino-coitado-era-tão-bom-rapaz, fez contas às possíveis promoções inerentes à minha rigidez irreversível e saiu como entrou... olhando o chão, mãos cruzadas nas partes importantes, como se tudo aquilo não passasse de um livre directo no futebol da sua carreira.
     Olha quem vem lá agora,... alguém que eu amo... não,... não me desligues agora... por favor... arghhhh... raio de barbuuuuuuuuuuu...

1 comentário:

Elis disse...

A (amarga-doce) vingança serve-se fria :o)
Grande relato que anima até os mortos! :D
E os vivos? Ah, esse tipo de animação só está reservada aos puros, sensíveis, inteligentes, enfim, aos bons, como nós! :D