10 de abril de 2011

Pecados

    
- Diz-me lá rapaz...? conta-me dos teus pecados? - apoiava o rosto rosado nas mãos brancas colocadas em prece e os seus olhos baixavam displicentes naquele corpo sóbrio, posicionado em busto de santo, enquanto aguardava de mim o relatório das dores de Deus. Era sempre assim, inquieto, olhando-me sem vontade de me ver, auscultando-me pecados algures num ponto qualquer atrás de mim, envolvendo-me com uma voz de veludo que ainda hoje usa para polir os défices espirituais das almas negras que levitam, escuras, pelos recantos da igreja.
     "Os meus pecados... quais pecados?!?" Os mesmos pecados que inspiraram Dante, num inferno de chamas abertas, devorando corpos e almas. Os meus pecados... estigmas patrocinados por uma igreja sombria e decadente que se afirma sobre um povo dócil com um dogma etéreo da fé. Mas quais pecados? 
     Acabava sempre por confessar pecados imaginários e servia-os ali como se fossem o prato do dia do menu da alma. Confessava que mentia, desobedecia, dizia palavrões... confessava dessa forma que não sabia rigorosamente nada acerca do pecado.
     Aí o Sr. Padre suspirava e envolvia-me em orações e credos, condescendente com a minha falta de argumentos, com a minha falta de convicção. Eu ouvia,... só. Fazia um acompanhamento mudo do vocabulário esotérico e sereno que nunca consegui aprender em todas aquelas sessões sacras. 
     A sentença saía logo depois numa série de padre nossos e avé marias a soletrar nos degraus do altar-mor, de olhos postos, devotos, num Cristo crucificado de braços abertos de sofrimento e sangue. As preces saíam-me com erros de entendimento, sussurradas no vazio da minha cabeça e ali mesmo ao meu lado, pagando a sua conta, João do Boco avançado-mor nos jogos da bola de sábado à tarde, ele de olhos pregados no vermelho do tapete que adornava a cruz, sussurrava também ele no vazio da sua cabeça, caralhos e fodasses, heresias cultivadas nas ruas da aldeia, as mesmas com que incentivava o nonagésimo toque na bola sem a deixar cair no chão.

5 de abril de 2011

Pequenos prazeres

  
Durante a minha morte senti o desdém dos muitos que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram para dentro e saíram cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em subtis espasmos musculares num qualquer canto da boca.
     Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Desenganem-se. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Deixa-nos morrer devagar mesmo depois da certidão de óbito, com a lentidão necessária para que todos os hipócritas que nos sorriram em vida, mostrem a fronha desfraldada na sua verdadeira essência enquanto nos apagamos serenamente. "Que se fodam" - pensei eu com as presilhas da minha urna. Eu só estou aqui deitado, inerte, porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos.
     Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiúço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal das barbas brancas e voz de tuba. Digo-vos mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. 
     Ah... lá vem aquele fuinha do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata,... preta como lá-terá-que-ser, murmurou qualquer coisa sem interesse acerca do é-o-destino-coitado-era-tão-bom-rapaz, fez contas às possíveis promoções inerentes à minha rigidez irreversível e saiu como entrou... olhando o chão, mãos cruzadas nas partes importantes, como se tudo aquilo não passasse de um livre directo no futebol da sua carreira.
     Olha quem vem lá agora,... alguém que eu amo... não,... não me desligues agora... por favor... arghhhh... raio de barbuuuuuuuuuuu...

1 de abril de 2011

Os gráficos do meu desempenho

Mostraram-me o gráfico do meu desempenho. Alguns prazos não estavam a ser cumpridos. Uma leve brisa entrou pela janela entreaberta trazendo com ela um suave aroma verde que argumentava com os índices de produtividade que me chegavam aos ouvidos em ondas curtas e sem forma... como se de repente tivesse entrado num túnel... do tempo... onde as vozes se misturavam algures no espaço, onde as memórias se confundiam e se entrelaçavam.
     -... os objectivos para o mês de Setembro são baseados na fraca performance dos meses antecedentes... - a voz continuava a ouvir-se num vaivém de ondas sem conteúdo... nem tempo.      "... performance??" - pensei - "eles sabem lá o que é performance..!!!"      Olhei pela janela. O sol já ia alto. Lá fora pairava a minha nave reluzente com as suas turbinas dissimuladas e o sistema anti-gravitacional já activado telepaticamente. Por vezes o ruído grave do engenho ondulava todo o espaço do recreio, chegava formigando-me os pés, subindo pelas paredes num levíssimo trepidar quase audível para o resto da classe.      "Isto sim, é performance... " - movi o ollhar para a sala de aula onde o tempo se misturava.      -... as províncias de Angola,... quem sabe, levante o dedo... - passei os dedos pela lombada do meu livro de Geografia sem intenção de o abrir. Ao meu lado o Joaquim olhava absorto pela janela enquanto girava o côto do lápis na bochecha. "Será que ele também tinha ali a sua nave estacionada pronta a arrancar pelo negrume dos céus ?"      -... Bié... Cabinda... Huíle... Luanda... - o Manel China desfiava o rosário das províncias de Angola ainda de dedo em riste apontando algures um ponto no espaço. Olhei de novo pela janela. Agora a cúpula da nave girava lentamente em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio enquanto as doze lâmpadas de brilho ambar marcavam toda a área de influência magnética do aparelho. De qualquer forma teria que aguardar pelo anoitecer, pensei. O sol tinha descido um pouco mais e preparava-se para desaparecer atrás dos prédios cinzentos, onde tudo parecia convergir      -... se não tiverem mais questões a colocar, julgo que podemos dar por terminada a reunião... - os gráficos tinham desaparecido e em seu lugar estavam agora alguns apontamentos para o mês seguinte. 

     Levantei-me, olhei pela janela antes de sair... a nave tinha desaparecido juntamente com o sol.