"Os meus pecados... quais pecados?!?" Os mesmos pecados que inspiraram Dante, num inferno de chamas abertas, devorando corpos e almas. Os meus pecados... estigmas patrocinados por uma igreja sombria e decadente que se afirma sobre um povo dócil com um dogma etéreo da fé. Mas quais pecados?
Acabava sempre por confessar pecados imaginários e servia-os ali como se fossem o prato do dia do menu da alma. Confessava que mentia, desobedecia, dizia palavrões... confessava dessa forma que não sabia rigorosamente nada acerca do pecado.
Aí o Sr. Padre suspirava e envolvia-me em orações e credos, condescendente com a minha falta de argumentos, com a minha falta de convicção. Eu ouvia,... só. Fazia um acompanhamento mudo do vocabulário esotérico e sereno que nunca consegui aprender em todas aquelas sessões sacras.
A sentença saía logo depois numa série de padre nossos e avé marias a soletrar nos degraus do altar-mor, de olhos postos, devotos, num Cristo crucificado de braços abertos de sofrimento e sangue. As preces saíam-me com erros de entendimento, sussurradas no vazio da minha cabeça e ali mesmo ao meu lado, pagando a sua conta, João do Boco avançado-mor nos jogos da bola de sábado à tarde, ele de olhos pregados no vermelho do tapete que adornava a cruz, sussurrava também ele no vazio da sua cabeça, caralhos e fodasses, heresias cultivadas nas ruas da aldeia, as mesmas com que incentivava o nonagésimo toque na bola sem a deixar cair no chão.


