Diziam-se coisas. Causas para tanto desatino. Histórias de um amor perdido, outras acerca da guerra... histórias que me soavam a coisa tão pouco original que não me passou pela cabeça apoiar tal loucura em coisas tão banais. Ocorreu-me perguntar-lhe mas, naquele momento achei por bem não o tentar, porque naquele momento ele fulminava-me com um olhar terrível, o mesmo que o fazia temido nas redondezas.
- Eu disse um quartilho... - vociferou enquanto apoiava as mão enormes no balcão - ... e isto não é um quartilho!! - era impressionante como todas as partes do seu corpo de gigante pareciam conjugar-se com a força daquele olhar que por sua vez se pregava no copo do vinho. Depois, bem... depois resolveu prega-lo em mim. Tentei olhá-lo de frente com uma coragem duvidosa, não nos olhos directamente mas numa zona algures por ali onde as minhas pernas não tremessem tanto.
- Não posso... a minha mãe... proibiu... - comecei por dizer, mas a voz saiu-me esganiçada e sem convicção. Nada como tinha planeado quando tossiquei para libertar o nó da garganta - ... queres que a chame aqui? - era um argumento cobarde mas que eu sabia surtir algum efeito. Ajustou o corpo num impasse, baixou de novo os olhos para o copo e quando o ergueu, bebeu-o de uma só vez. Não que fosse de beber em demasia mas era sabido o que um copo a mais conseguia fazer na sua loucura natural. Quando tal acontecia era vê-lo pelas ruas bradando aqui-del-rei-ás-armas, cambaleando trôpego atrás dos catraios que sumiam pelos becos deixando os botões do jogo do pião abandonados no centro da roda. Tinha a força de um touro. Era solicitado quando o trabalho era duro e entregava a sua força como ninguém e por quase nada.
Então sentou-se, e quando o fez, transformou-se. Já me tinha habituado àquelas mudanças de humor. O seu corpo quase que sorriu com a docilidade infantil de um velho. Podia perguntar agora, pensei. Cheguei-me ao balcão, um pouco mais perto... conseguia sentir a força da sua presença no próprio ar que o envolvia. Segurava nas suas mãos fortes, ásperas, o chapéu sujo e gasto.
- .. Quim... - chamei. Ficou igual, com um respirar profundo e mágico. Procurei as palavras mas não encontrei nada que servisse o meu propósito. Olhei as minhas próprias mãos apoiadas no frio do balcão e a curiosidade foi-se. Fiquei só a ver-lhe o rosto marcado, dócil e os olhos perdidos no branco da parede.
Morreu numa dessas noite, no percurso que acompanha o comboio até à vila, talvez tocado por ele, talvez por alguém que o feriu de morte e ali o deixou. Ficou uma foto sua, exposta no café da freguesia numa pose de génio taralhouco mas com o olhar mais lúcido que lhe conheci.

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